
A centenária árvore Maria Mola






EM AULA
Fiquei na editoria de cultura do jornal LAB. Logo pensei em entrevistar um escultor. Primeiramente, me veio em mente a figura de Xico Stockinger e, em seguida, me lembrei de Bez Batti. Fiquei em dúvida. Porém, uma semana depois Xico faleceu, infelizmente, pondo fim a minha indecisão.
ON THE ROAD
Segunda-feira, dia 20 de abril, véspera do feriado de Tiradentes. Com um céu de brigadeiro e minha namorada, Alice, à bordo, entrei no carro e parti para Bento Gonçalves para seguir o Caminhos de Pedra ao encontro do escultor Bez Batti. Saímos as 11h da manhã de Porto Alegre. Em aproximadamente 1h e 30min chegamos a Bento.
Rodavámos lentamente admirando a paisagem bucólica da estrada. As 2h sentimos nossos estômagos roncarem e decidimos parar para almoçar.
No caminho, um restaurante chamado, Dona Ludia, pareceu-nos interessante. A casa era toda feita de pedra, ao estilo tipico colonial italiano e as mesas ficavam no sub-solo da residência. Logo ao lado, um Umbu centenário chamado, Maria Mola, enchia o chão com suas folhas outonais.
Depois de nos fartarmos comendo o tradicional galeto com polenta da região, fomos acender um cigarro e fazer a digestão sob os galhos da Maria. Aliás, o restaurante já estava fechado e pessoas ainda paravam para tirar fotos com a árvore.
O ATELIÊ
As 4h, ao estacionar o carro em frente a uma casa em construção toda envidraçada; já era possível avistar as obras do escultor e saber que estávamos no lugar certo. Por entre as árvores, Bez Batti: usando um cap peluciado, camisa, óculos e uma calça jeans nos recebeu.
O ateliê ainda estava em obras, pois Bez estava de mudança. E como é de se imaginar não é fácil transportar com segurança todas as suas esculturas, algumas com mais de 10 Kg certamente.
As esculturas em basalto são de uma sensibilidade comovente. É incrível o dom que aquele homem tem. No entanto, Bez disse: "o mais importante é a transpiração".
Sentamos em uma mesa improvisada no meio da sala. A mesa suportava um enorme seixo perfurado. Assim, a entrevista começou.
A ENTREVISTA
Bez mostrou ser um homem de forte senso crítico, dono de um humor sarcástico e forte personalidade: temperamento questionador: artístico. "Vivemos no tempo dos sem vocação (...) a cultura musical é ainda pior do que as artes plásticas. É só ouvir a Ivete Sangalo" afirmou. "O Lula coopera para o país ficar cada vez mais brega"
Sobre seus hábitos ele assumiu ter necessidade da solidão; também: "Só durmo duas horas por dia, se dormir três fico cansado" e "pelo menos uma vez por semana caminho pela encosta do rio ".
Enquanto isso. A Alice estava fotografando.
Bez ao falar de Xico Stockinger já estava bem mais a vontade. Nos mostrou uma foto com o falecido amigo e uma escultura ganha por ele. "Xico foi o maior escultor brasileiro" disse.
Ao se descrever comentou: "Eu sou vira-latas. Meu pai é italiano, minha mãe de Luxemburgo, não me sinto nem alemão nem italiano. Sou filho do Rio".
Depois de 3h de boa conversa, nos despedimos do ermitão de coração mole. E fomos embora um pouco mais fãs de Bez Batti.
Marcelo Coelho
Fotos de Alice Stepansky
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