domingo, 29 de março de 2009

O papel do jornal de papel

É interessante notar como cada geração possui suas características e hábitos distintos. A época em que nascemos possui uma influência exacerbada na maneira com a qual encaramos o mundo. A geração que cresceu na década de 90, na qual me incluo, é quase unânime em apontar que a geração que cresceu na década de 2000 teve certo "azar", visto que enquanto a primeira se divertia assistindo aos Power Rangers e Ursinhos Carinhosos, a última teve que se contentar com desenhos japoneses sobre robôs e outros do gênero. A primeira era feliz com um Super Nintendo que rodava os jogos mais simples, mas divertidos, enquanto a nova geração só quer saber de videogames ultramodernos e de gráficos avançadíssimos. Os anos 90 tinham O Rei Leão e Aladdin, animações em 2D no melhor estilo clássico da Disney; os 2000 viram a Disney tomar a decisão de que iria abandonar as produções em 2D (felizmente o estúdio voltou atrás, com a animação convencional "A Princesa e o Sapo" estreando no final de 2009). Tudo isso se deve a um fator: a geração que cresceu nos anos 2000 é a primeira geração digital. É evidente que a geração dos anos 90 cansou de ouvir de seus pais a expressão "no meu tempo...", remetendo à forma de diversão com peões e escalada de árvores. A mudança, portanto, já é antiga. Mas ela se consolidou neste novo século.
Os anos 90 foram os últimos a ver uma infância sem a Internet. Esta revolucionou tudo e todos, transformou toda a forma de entretenimento e criou uma geração que é completamente dependente dela. Com a Internet, mudam-se as relações. Mudam-se os hábitos. E um dos costumes que se modifica a olhos vistos e com uma velocidade surpreendente é a leitura de jornal de papel. O advento da Internet criou um problema seríssimo e que talvez não tenha solução para o jornal de papel: a velocidade das informações e a maneira pela qual elas se defasam rapidamente. O que se lê no matutino pode já estar desatualizado. Como acompanhar as Olimpíadas de Pequim pelo papel, se nenhum dos eventos da madrugada recente está lá? Como dar seriedade às matérias sobre o Oscar quando o papel não aponta os já conhecidos vencedores? Como se importar com o listão de aprovados em um vestibular, uma vez que todos os que concorriam às vagas já sabem se foram aprovados ou não?
Mas o jornal de papel é muito mais que simplesmente um veículo defasado para as gerações de 90 e anteriores. Ele é um costume. Muitos são aqueles que, ao acordar, correm para ver a capa de seu jornal, ler a opinião dos colunistas sobre a atuação do time na noite anterior, analisar o texto explicativo sobre o acidente que era o assunto principal do jornal televisivo da véspera e até mesmo olhar o horóscopo e a coluna social. E esse é um hábito que, para tais gerações, dificilmente morrerá - apenas se o próprio jornal de papel morrer, evidentemente.
O mesmo, contudo, não pode ser dito sobre as novas gerações. O jornal não é um costume, é uma eventualidade. O costume mesmo é o computador, é chegar da escola e ir direto conversar com os colegas recém-vistos em programas de mensagem instantânea. Quando essa geração passar a se interessar por notícias, ela recorrerá ao rústico jornal de papel ou ao meio mais simples, veloz, atualizado - a Internet?
Francamente, acredito que a geração da década de 2000 ainda recorrerá aos jornais de papel - mas em uma escala reduzida. O hábito permanece forte entre as famílias, o jornal ainda se encontra ao lado da mesa de café-da-manhã. Mas a geração seguinte, a que está por vir, dificilmente levará o jornal de papel em conta. A mudança é gradativa, mas ligeira. Estão os dias do jornal de papel contados? Não sei. Ninguém sabe, de fato; o máximo que existe são opiniões. Uma coisa, contudo, é certa: o fim do jornal de papel de maneira alguma significaria o fim do jornalista. É uma evolução, gostemos ou não; a Internet não é inimiga de ninguém. Não podemos permitir que o valor da nostalgia nos impeça de encontrar os pontos positivos nas inovações - assim como não podemos, portanto, menosprezar as novas gerações.

Filipe Cunha

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